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A revolução dos jogos Battle Royale

É possível perceber os esforços da indústria para criar novas tecnologias, mídias e formas de se jogar um jogo. Nos últimos anos vimos surgir consoles portáteis com hardware poderoso e controles destacáveis, sistemas de streaming e no momento estamos acompanhando o surgimento das realidades mistas, virtual e aumentada. Entretanto, de tempos em tempos, surgem inovações no mundo dos games que embora imprevistas, acabam sendo absorvidas rapidamente pela corrente mainstream. Isso já aconteceu diversas vezes dentro da história dos games e talvez a última que você se lembra foi a revolução dos jogos MOBA (Arena de Batalha Multijogador Online). Mas lá em 2017 um novo gênero de jogo igualmente não planejado acabou recebendo muita atenção por parte dos players e igualmente pela indústria, trata-se dos jogos battle royale.

Ao que parece, as características que compõe o gênero battle royale já existiam mesmo antes de 2012: Jogos de ação multiplayers já carregavam características de “vence o último que aguentar em pé” e os famosos survivor games já haviam popularizado as características de sobrevivência e mundo aberto. Mas foi em 2012, pouco tempo depois do lançamento do filme Jogos Vorazes, que o fenômeno começou a ganhar mais destaque. A partir do lançamento de uma mod (modificação, mapa customizado) para o jogo Minecraft  que foi inspirada no filme que estava bombando naquele ano. Essa mod, que já possui uma infinidade de variações que seguem o mesmo estilo, coloca os players em círculo e quando é dada a largada, os jogadores podem competir pelos recursos dispostos no centro do círculo ou se espalharem pelo mapa em busca de outros recursos e abrigo. Os jogadores mortos são eliminados da partida e vence o último sobrevivente.

Mod Hunger Games para Minecraft (2012)

Logo em seguida surgiram algumas mods para os games ARMA 2 e DayZ que colocavam os players para lutarem uns do lado dos outros ou contra a fim de conseguir recursos para suprir suas necessidades básicas e manterem-se vivos em um mapa estilo sandbox repleto de perigos. Mas mesmo que a ideia inicial destes mapas fosse focar no combate player vs. player eles aconteciam muito raramente por conta do tamanho do mapa, fato que levou o desenvolvimento dessas mods a rever o tamanho do mapa para focar mais em interações mais hostis entre os players e eventualmente determinar um vencedor.

Brendan Greene aka PlayerUnknown

Mas foi a partir da mod chamada Battle Royale, para ARMA 2 e Day Z, que foi definido um novo gênero homonimamente chamado Battle Royale. Esta mod foi desenvolvida por Brendan Greene (foto ao lado), mais conhecido pelo seu nick PlayerUnknown, e foi lançada em 2013. Greene disse ter se inspirado no filme japonês Battle Royale (2000), que conta a história de alguns estudantes que são levados a uma ilha e obrigados a batalhar uns contra os outros até que restasse apenas um sobrevivente, o levando a dar à mod, o mesmo nome do filme. A principal diferença entre as mods inspiradas em Jogos Vorazes e o Battle Royale é que Greene optou por distribuir os recursos randomicamente pelo mapa ao invés de colocá-los em um repositório central.

Filme: Battle Royale (2000)

Greene chegou a atualizar a sua mod para o game ARMA 3 e baseou-se em sua ideia original quando prestou consultoria para o game H1Z1: King of the Kill antes de se tornar o diretor criativo na Bluehole, onde finalmente trabalhou no título que viria a representar sua visão definitiva do gênero battle royale, o PlayerUnknown’s Battlegrounds (PUBG). E mesmo que o PUBG não tenha sido o primeiro jogo battle royale, o seu lançamento em forma de acesso antecipado em março de 2017 acabou chamando muita atenção, vendendo mais de 25 milhões de cópias até o final daquele ano, e é considerado o jogo definitivo do gênero. O crescimento explosivo de PUBG e como ele acabou criando o gênero battle royale foi considerado uma das principais tendências da indústria dos games em 2017.

PlayerUnknown’s Battlegrounds (PUBG)

A popularidade do game acabou despertando o interesse pelo novo gênero não só nos players, mas também por parte da indústria. Muitos jogos que copiavam o gameplay de PUBG começaram a pipocar na China, tão logo o seu lançamento, o que gerou várias polêmicas por aquelas terras. Ainda em agosto de 2017, Grand Theft Auto Online recebeu uma atualização com um mapa battle royale e em janeiro de 2018 foi a vez de Paladins criar um modo de jogo battle royale nomeando-o de “Battlegrounds”, em referência ao conceito das primeiras arenas MMO que focavam em encontros pvp ao invés de ser apenas mais uma cópia de PUBG.

E notavelmente, Fortnite, um game de sobrevivência desenvolvido pela Epic Games, que, diga-se de passagem, é também a desenvolvedora da Unreal Engine qual foi usada no desenvolvimento do PUBG, lançou um modo de jogo gratuito e battle royale baseado nas mecânicas já existentes em Fortnite em setembro de 2017. E logo em novembro do mesmo ano a Epic Games reportou que o game já contava com mais de 20 milhões de players únicos.

Fortnite Battle Royale by Epic Games

A Bluehole chegou a expressar suas preocupações sobre os movimentos da Epic Games, não por estar fazendo um clone de PUBG, mas por eles terem trabalhado com a Epic Games através do suporte técnico para a Unreal Engine no PUBG, e que a Epic Games  poderia incluir os recursos já planejados para o PUBG no modo battle royale de Fortnite muito antes do que eles conseguiriam para o lançamento do PUBG. “Nós estamos começando a nos preocupar de que eles criem novos recursos ou melhorem coisas na engine para melhorar o gameplay do battle royale e depois usem essas melhorias para o jogo deles.” Disse Changhan Kim, produtor executivo da Bluehole para a PC Gamer logo depois do lançamento do Fortnite Battle Royale.

Mas, tretas da indústria à parte, o que realmente importa é ver como é possível que um novo gênero/tendência pode surgir a partir de movimentos pequenos feitos por pessoas que curtem muito um game mas que ao mesmo tempo vêem nele outras possibilidades não exploradas pela equipe de desenvolvimento e através de sistemas de customização, criam produtos derivados que acabam ficando tão ou mais conhecidos que o jogo original, influenciando novos jogos e gêneros. Tudo a partir de uma pergunta básica que insiste em ecoar em nossas mentes criativas “E se…”.

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