The Art Of

Conversamos com Even Mehl Amundsen

Fazia um tempo que não tínhamos entrevistas por aqui, não é mesmo? Como o Even está vindo para o Brasil em novembro (falamos mais sobre isso no final do post), decidimos trocar umas palavrinhas* com ele pra vocês conhecerem mais sobre esse character design e seu trabalho incrível! Even Mehl Amundsen é um concept artist de Stabekk, Noruega. Ele já trabalhou para a Blizzard Entertainment, Games Workshop e outras empresas respeitáveis ​​no passado. A carreira do Even começou em Quebec, no Canadá, onde trabalhou para o VOLTA, um estúdio bem conhecido na indústria de entretenimento. Foi lá que ele passou três anos aprendendo as bases do que seria seu novo emprego, com a ajuda de muitos artistas que ele admirava na época.

Então, Even, partindo dessa apresentação, você pode falar sobre sua jornada desde o estúdio VOLTA até agora?

Bem, eu estive em muitos lugares diferentes. Eu estudei também em Falmouth e Oslo, abandonei a faculdade depois disso e consegui um emprego na VOLTA, onde consegui trabalhar por três anos antes de sentir as velhas cordas da Europa me puxando pra casa. Trabalhar em um estúdio foi um grande passo, especialmente em termos do calibre do trabalho que estava disponível para mim. O mais memorável foi fazer personagens para Lord of the Rings online, Riders of Rohan. Sendo um grande fã de Tolkien, me diverti muito com esse projeto. Nessa época, acho que superar meu próprio ego foi o que me ensinou a maior lição, e me permitiu crescer mais como artista. Depois, já na Europa, eu estava morando em Praga fazia um ano, fazendo freelance e me divertindo, quando recebi algumas ligações da Blizzard Entertainment, algumas pessoas me perguntaram se eu queria trabalhar para elas. Aí atravessei o lago de novo, mas achei que a Califórnia, por mais que tenha seus encantos, não era o lugar ideal pra mim. Então voltei para o leste, e agora vocês podem me encontrar na terra dos dinamarqueses.

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Concept Art Even Mehl Amundsen


Quanta viagem! Nesse vai-e-vem, o que te motiva a criar arte?

O ato de criar, dito assim, pode soar um pouco pretensioso, mas é tão verdadeiro como qualquer tentativa de reduzir uma motivação complexa a uma resposta curta de uma entrevista. Eu sempre pensei que desenhar era legal, e quanto mais eu trabalho com isso, mais alegria eu encontro nessa prática. Mesma coisa com os concepts.

E como você encontrou um estilo pessoal?

Não sei se posso dizer que tenho um. Eu sei que muitas pessoas desejam ter um estilo específico, mas eu faço o meu melhor para permanecer bastante orgânico no desenvolvimento, estudando artistas que eu acho interessantes e aproveitando o que posso do trabalho deles. Acho que é mais importante ser fluido na expressão e aplicar todas essas técnicas que vão evidenciar o que você deseja expressar em seu trabalho.

 

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Concept Art Even Mehl Amundsen

 

Como o trabalho da Blizzard Entertainment ajudou você a se tornar um artista melhor?

Eu consegui trabalhar junto com alguns artistas absurdos, o que me ajudou demais. Aprendi com pessoas como Jake Panian, Josh Tallman e Laurel D. Austin, todos gigantes com habilidades que superam as minhas, em diversos sentidos.

E no que você trabalhou enquanto estava na Blizzard?

Trabalhei no trailer cinematográfico de Whispers of the Old Gods — a terceira expansão de Hearthstone. Na verdade, eu fiz algumas obras de criação e o projeto básico para o troll. Foi um trabalho divertido e tive a chance de ter meu trabalho criticado pelo monstro que é o Laurel D. Austin. Isso me ensinou várias coisas, com certeza!

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Concept Art Even Mehl Amundsen

 

Você é um concept artist, emprego que não é muito óbvio pra quem está começando. Quando você descobriu o artista dentro de você? Você pode nos contar essa história?

Como muitas pessoas, comecei bem novo, rabiscando navios piratas e dinossauros e tudo aquilo que fazia minha cabeça na época. Mas eu comecei a tratar o desenho como alguma coisa maior do que um hobby lá pelos 15 anos. E só quando eu já tinha 18, quando aprendi sobre concept art e sobre toda a indústria em torno disso, quando fiquei viciado, e decidi que era isso que eu queria fazer.

Quando você começou a fazer freelance? Foi antes ou depois dos seus estudos no Reino Unido?

Foi, na verdade, durante o tempo que estive em Falmouth. Eu não era um aluno muito bom, principalmente porque eu queria seguir uma direção que não estava exatamente prevista no currículo do meu curso, então eu comecei a fazer trabalhos estranhos que eu encontrava no conceptart.org. Na maior parte, eu queria saber mais sobre o lado comercial das coisas, mas eu também estava tentando ver se meu conjunto de habilidades estava preparado para um trabalho.

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Concept Art Even Mehl Amundsen

 

Como você acha que formou o seu estilo?

Acho que o meu estilo, em sua maior parte, foi formado pelos artistas que cresci idolatrando, Paul Bonner, Karl Kopinski, Paul Dainton, Alphonse Mucha, Hiroaki Samura, além dos meus heróis posteriores, gente como Wes Burt, Karla Ortiz, Kim Jung Gi, Ruan Jia, Zedig, NoxIzMad e ultimamente Espen Sætervik e Mike Azevedo. Há, naturalmente, muitos mais, todos os quais conseguiram deixar certas partes de seu trabalho. Eu me esforço para imitar isso, esses artistas.

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Concept Art Even Mehl Amundsen

 

Suas peças têm uma ótima estrutura de desenho mas também têm um controle de valores incrível. Você já pintou tradicionalmente? Tem alguma dica especifica para a prática de controle de valores?

Eu fiz um pouco de pintura tradicional na escola de artes, e meu parceiro de estúdio, Jesper Ejsing, está sempre tentando me chamando pra pintar, então assim que eu tiver um pouco mais de tempo eu planejo começar a pintar de novo. Agora, quanto à parte prática, principalmente no que tem a ver com valores, é tudo sobre estudar e entender os princípios de luz e sombra e usá-los para acentuar aquilo que você está tentando dizer com um desenho. Não tem muito segredo.

Qual é seu principal objetivo como artista? Você se sente completo nesse ponto da sua carreira?

Acho que eu iria gostar de poder trabalhar nas minhas próprias histórias e ilustrações em algum ponto, e talvez fazer alguns trabalhos para clientes paralelamente, porque quanto mais eu trabalho com criação de universos mais obsessivo eu fico, e isso é muito legal.

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Concept Art Even Mehl Amundsen

 

Você anda por aí com seu sketchbook? Esse hábito tem um impacto grande no seu trabalho?

Eu, literalmente, nunca saio de casa sem ele. Sempre é uma boa ideia se manter desafiado a desenhar e ter um lembrete do que você já consegue fazer e do que você não consegue fazer ainda.

Quais práticas você acredita que um designer de personagens deve exercitar todos os dias?

Observar pessoas, ler livros, ver como o design de personagem é implementado de verdade (e com sucesso), em filmes, jogos e no teatro. Se você entende de onde vêm muito dos clichês de personagens, você consegue quebrar esses clichês e remodelá-los para que eles funcionem melhor na história que você quer contar.

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Concept Art Even Mehl Amundsen

 

Pra finalizar: se você pudesse dar cinco dicas para quem quer ser um concept artist, quais seriam?

1 • Aprenda a desapegar. Quanto mais cedo você aprender essa lição, melhor. Isso também significa se livrar do seu ego e aceitar que você sempre vai ter o que aprender, não importa o quão bom você já seja.

2 • Ame o processo. Querer ser bom não é nem de perto um sentimento tão valioso quanto a vontade de se tornar bom.

3 • Desenvolva habilidades a partir de um estilo. O estilo é apenas a expressão de sua estética pessoal, de modo que, quanto mais suas habilidades melhorarem, mais liberdade você tem para desenvolver vários estilos. Nunca deixe que seu estilo se torne uma muleta, deixe que ele seja sempre uma ferramenta.

4 • Encontre pessoas com quem você pode compartilhar a viagem. Ter um grupo de colegas artistas de quem você pode depender de feedback consistente e sólido e novas perspectivas são coisas inestimáveis.

5 • F.V.F.I. Se você se sentir um pouco preguiçoso, pra baixo ou apenas sem vontade de criar, essas palavras imortais do Ze Frank são muito úteis para você se motivar a fazer algo. Se você fica se questionando muito sobre se deve ou não fazer alguma coisa, começar ou não, acabar ou não, apenas diga a si mesmo, com uma voz alta e confiante: “Foda-se, vamos fazer isso!”.

Funciona toda vez.

 

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Concept Art Even Mehl Amundsen

*Essa entrevista foi resultado de perguntas feitas diretamente ao artista e de tradução de parte da entrevista feita pelo It’s Art Magazine (você pode encontrar a entrevista completa em inglês aqui).

Even Mehl Amundsen no Brasil

No dia 19 de novembro, o Even vai dar uma Masterclass em São Paulo! Olha como vai ser:

• Palestra em inglês com moderação e interpretação de Mike Azevedo (não haverá tradução simultânea);
• Turma presencial;

Conteúdo Programático

• Introdução/Apresentação;
• Palestra:
– Resumo de Carreira;
– Sobre Character Design;
• Demonstrações;
• Q&A (Perguntas e Respostas);
• Portfólio Review (Para até 30 participantes);
• Encerramento/Sorteio de três sketches do Even

Quer participar? Veja como comprar seu ingresso no site da escola ICS.

Gabriela cuida da produção, revisão e tradução de todos os textos da escola. Mesmo sendo formada nas boas literaturas, ela compartilha de todas as nerdices que rolam na Revolution. Além de ser irmã do Gustavo (professor de 3D mais amado de Curitiba), ela curte séries e filmes e não resiste a nenhum tipo de chocolate.

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