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Do Digital ao Tradicional – Entrevista com Giovani Caramello

Já faz um tempo que não falamos sobre arte tradicional por aqui, não é? Apesar de a Revo ser uma escola focada em artes digitais, entendemos a importância das artes clássicas dentro da criação digital e, por este motivo, decidimos conversar com um artista que sabe que as duas áreas podem trabalhar juntas e criar obras incríveis! Estamos falando dos trabalhos do escultor Giovani Caramello.

Brasileiro, autodidata e autor de criações que são comparadas a obras do australiano Ron Mueck, Caramello trabalha com esculturas realistas feitas de silicone e resina que parecem representar a fragilidade humana. Mas o processo nem sempre foi esse! Na verdade, sua trajetória como escultor começou a partir do seu contato com a modelagem digital.

Conversamos com o artista para conhecermos melhor sua história e entendermos como o seu processo de criação funciona. Confira na entrevista abaixo ❤

Caramello está expondo algumas de suas obras no Centro Cultural do Banco do Brasil, na mostra 50 Anos de Realismo – Do Fotorrealismo à Realidade Virtual, em São Paulo. A exposição com cerca de 100 obras de mais de 20 artistas brasileiros e estrangeiros, está acontecendo desde o dia 7 de novembro e ficará disponível até 14 de dezembro, sempre das 9h às 21h.

Para mais informações, você pode acessar o site oficial da exposição.

Como a sua relação com a arte e as esculturas começou?

Conte sua história!

“Eu, desde pequeno, sempre tive contato com a arte porque minha mãe é formada em artes plásticas. E na época [quando Giovani era criança] ela pintava tela a óleo, então eu sempre gostei de ver ela pintando! Eu lembro que às vezes eu ia junto com ela nas aulas e tal… Então é uma coisa que eu sempre gostei. Sempre gostei de desenhar, me interessei por pintura (apesar de não pintar, na época eu gostava bastante).

Daí, conforme fui crescendo, eu tinha que procurar alguma profissão que envolvesse desenhos ou alguma coisa nesse sentido. Aos poucos eu fui pesquisando e acabei conhecendo o universo do 3D, do digital. Isso foi através de um evento na escola em que eu estudava, do qual participaram universidades estrangeiras que foram apresentar alguns cursos e eu vi que tinha um de efeitos visuais (algo quenunca imaginei que existia). Então, naquele momento, eu descobri o que eu queria fazer! Que era trabalhar com 3D, com arte digital. Só que na época não existiam muitas opções de curso no Brasil, então acabei fazendo um curso mais técnico.

Mesmo que não tivesse um lado muito artístico, foi por esse curso que comecei na área. Eu devia ter 18 ou 19 anos! Quer dizer, eu fiz o curso com 17 e aí me formei, fiquei um tempinho e comecei a trabalhar com 18 anos. Comecei a trabalhar como modelador digital… Trabalhava para algumas animações nacionais e junto comigo trabalhava um cara que fazia esculturas tradicionais também. Ele acabou me levando para esse caminho como uma forma de aperfeiçoar o meu trabalho digital. Aí eu comecei a estudar a escultura tradicional, só que eu acabei me apaixonando por ela e, aos poucos, fui largando o digital e ficando só com as esculturas.”

Você pode nos contar um pouco sobre o seu processo de criação?

“O processo criativo varia bastante de acordo com cada obra, com a sua complexidade, com o seu tamanho… Enfim. Mas eu sempre começo fazendo alguns rascunhos, seja no papel ou na própria massa (fazendo alguns esboços) até chegar em uma ideia que eu considere interessante de prosseguir. Eu sempre busco referências, inspirações em outros artistas e em diversas coisas, sempre tentando agregar à minha ideia.

[Em relação aos materiais] Hoje em dia eu trabalho bastante com a escultura em resina poliéster mas já trabalhei com silicone também.

[E em relação ao seu tempo de produção] Eu demoro mais ou menos… É que depende bastante do tamanho, né!? E do prazo (risos). Mas em média, um ou dois meses.”

O vídeo a seguir mostra como foi o processo de criação de sua última obra, Nikutai.

Qual é o seu trabalho (próprio) preferido? E o que você menos gosta?

“O meu trabalho preferido é uma obra que se chama Sozinho, que é aquela do menininho com a capinha do Batman. Ela foi uma das primeiras que eu fiz e considero ela a minha melhor obra! Não tecnicamente, mas acho que é a mais verdadeira, a mais sincera, porque acho que foi numa época que eu não tinha compromisso nenhum com comercial, com galeria, nem nada. Então acho que foi uma coisa mais natural e por isso que ela é, para mim, a melhor que eu fiz até hoje!

E trabalhos que eu menos gosto… Puts, tem vários, na verdade (risos). Ah, não sei dizer por nome assim. Não sei, mas tem várias obras que eu não gosto.”

Você está trabalhando em algum projeto novo?

“Surgiu um convite para participar dessa coletiva, 50 anos de realismo, e a curadora escolheu algumas obras que eu já tinha prontas e ainda me deu a possibilidade de produzir uma nova obra para a exposição. Então foi uma coisa meio de surpresa, meio inesperada e eu acabei pegando uma ideia que eu já tinha mais ou menos em mente, que é a obra Nikutai. Mas foi uma coisa muito em cima da hora, muito rápido, então eu acabei não gostando muito do resultado. Não a obra em si, sei lá… Tecnicamente, mas o geral dela… Não sei se me agrada muito.

Mas enfim, [sobre] essa exposição, eu tô bem feliz de estar lá! É um grande passo, né? Eu acho que se eu tivesse mais tempo teria feito algo melhor. E no momento eu estou trabalhando já pensando na SP-Arte do ano que vem, que é uma feira de arte que acontece em abril. Então eu vou produzir algumas obras para expor lá e no momento eu estou focado nisso.”

Agora, vamos falar um pouco sobre a sua experiência!

Quais foram as suas maiores dificuldades ao entrar na área?

“As maiores dificuldades que encontrei durante a trajetória eu acho que foram logo no começo, quando eu decidi fazer hiper realismo, trabalho com silicone e tudo mais. É muito, muito difícil encontrar material no Brasil. Material que eu digo é tanto para produzir, quanto para estudar. Hoje tem mais coisa, você consegue comprar cursos de fora, mas mesmo assim é pouco material.

Essa foi a minha maior dificuldade de iniciar realmente nessa técnica. Ela é bem complexa, então eu tive que perguntar para bastante cara de fora, encher o saco da galera! Foi meio que na raça de ir perguntando e tudo mais”.

Você, como um artista que já trabalhou com modelagem digital, tem alguma dica para quem está começando nessa área?

“Eu acho que para quem trabalha com digital a dica que eu daria é tentar ser o melhor desenhista e escultor tradicional, mesmo que o seu foco seja o digital. Porque tanto o desenho quanto a escultura tradicional são a base do digital!

Um cara que modela bem na massa e que tem um conhecimento de desenhos (mesmo que ele nunca tenha relado no zbrush), se você entregar uma tablet para ele e pedir para ele modelar alguma coisa, com certeza vai sair algo bem legal! Eu já vi isso acontecer diversas vezes. E o inverso geralmente não acontece.

Então para quem estuda o digital ou trabalha profissionalmente, eu sugiro que estude muito o tradicional porque vai fazer uma grande diferença. Vai tirar você da curva! Sei lá, eu acho que se uma pessoa é super foda no digital mas ela quer se destacar mais ainda, é buscar o tradicional. Buscar referências tradicionais, toda essa galera que veio antes de gente, os mestres antigos, como Bernini e Michelângelo.

Enfim, eu acho super importante buscar essas referências, não necessariamente reproduzir, copiar ou algo assim, mas para usar como referências mesmo. Porque acho que é muito importante valorizar o que já fizeram no passado. Então a dica que eu dou é estudar muito e se aprofundar no tradicional!”

Para finalizar, confira a seleção que fizemos dos trabalhos do artista! Ao clicar na imagem, você consegue ampliá-la e ver o nome da obra (Assim como em todas as outras imagens do post).

Ah, algo importante para se dizer é que se você quiser acompanhar seu trabalho mais de perto, Caramello sempre atualiza seu instagram com novidades relacionadas às suas obras (:

  

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18 anos, cabeça nas nuvens e viciada em marca-páginas,
Prazer.

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