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É Tarde de Mais Para Começar?

Conta para a gente, mais um ano se passou e o que você fez pela sua carreira? Pode não parecer importante mas fazer essa reflexão é fundamental para que você saiba exatamente por onde começar em 2019. Inclusive, simplesmente começar pode ser uma boa pedida.

Por este motivo, vamos abrir o ano respondendo aquela velha pergunta: É tarde de mais para começar a me dedicar ao que eu amo? Para responder essa pergunta, conversamos com alguns de nossos leitores, que consideram ter começado a se dedicar tarde, a respeito de suas trajetórias dentro do universo artístico.

Esta matéria foi feita com alguns de nossos leitores para mostrarmos que correr atrás dos nossos sonhos está ao alcance de todos, independentemente da idade! Acreditamos que entrevistas assim podem ser tão motivadoras quanto entrevistas com artistas mais conhecidos (:

*Gostaríamos de agradecer a todos que enviaram suas histórias para a composição desta matéria! Infelizmente não foi possível colocar todas elas aqui, mas lemos cada uma com carinhos e gostamos muito da participação de vocês ❤

Conheça os nossos entrevistados.

(Passe o mouse por cima das imagens)

Qual é a sua história como artista?

Por que você acha que começou a se dedicar tarde?

Marcio Florindo

“Eu gostava de desenhar de vez em quando e sempre tive muito interesse em fazer quadrinhos. Inclusive, ainda tenho. Tenho um roteiro começado já, mas eu… Ah, é muito difícil essa vida né? Ou você estuda uma coisa ou estuda outra (risos). E eu ainda tento dividir a minha vida a fazer quase tudo ao mesmo tempo, mas enfim. Eu fui crescendo e querendo fazer quadrinhos. Só que teve um dia, em que eu estava bem feliz na minha vida, que eu ouvi dizer que ia sair um filme de animação. Aí eu ‘Que que é isso animação? É um negócio feito de 3D, mas o que é 3D?’. E foi aí que eu vi Toy Story pela primeira vez.

Trabalho de Marcio Florindo.

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Eu lembro até hoje, eu sentadinho no chão assistindo Toy Story pensando ‘É isso o que eu quero fazer da minha vida, eu quero aprender 3D!’. Aí eu vinha com aquele desejo e eu não tinha internet naquela época, não tinha acesso as coisas né?! Foi quando eu comecei a trabalhar numa empresa, a empresa do meu tio, e lá na empresa eu tinha acesso à internet.

Eu comecei a pesquisar sobre o assunto. Eu lembro que eu cheguei no Maya, que a Pixar usava o Maya (na verdade o PowerAnimator [software que deu origem ao Maya]). Então eu descobri que eles estavam usando esse PowerAnimator, que depois virou Maya e eu fui atrás né? Bem louco. Nisso eu descobri que ele só rodava em IRIX, um sistema operacional baseado em UNIX, que só roda nas máquinas da Silicon Graphics.

Enfim, eu descobri isso, cheguei no Maya, descobri que o Maya não podia ser usado e aí fiquei naquela. Eu pensei ‘e agora? Será que eu vou pro 3D MAX? Mas ele não é o que a Pixar usando’, sabe? Aquela ideia de que eu queria chegar lá, né?! Aí aconteceu de, bem nessa época (Foi em 99 se eu não me engano [1998, na verdade]), lançarem a primeira versão de Maya para Windows! E eu fui em uma… Alguma coisa roadshow, não lembro o nome do evento, mas era onde eles iam fazer uma apresentação de Maya. Aí eu fui louco, desesperado. Assisti e consegui comprar uma versão pirata de um camelô, que me vendou por 10 reais. Eu sei, mas é que naquela época não tinha esse sistema de ensino, que a gente pode usar o software para aprender e tal. Então eu tive que pegar o pirata e era muito difícil para instalar aquilo! E era bem isso… Eu comecei mais ou menos dessa forma.

Porém, nessa minha trajetória aí, foi bem na época que minha namorada da época ficou grávida, e daí nasceu meu filho… Então eu tive que colocar todos esses detalhes, esses sonhos meus, de lado. Fui cuidar da família, do filho. E daí passou-se muito tempo. Eu me casei, não tinha condições de criar o filho e muito menos de ter um computador que rodasse tudo aquilo né? […]”.

Fernanda Turesso

Eu cresci desenhando. Meus pais investiram sempre em mim pra que eu melhorasse meus desenhos. Aos 10 anos eu frequentava a Escola Juvenil de Artes Plásticas em Curitiba e aprendi muita coisa lá que eu levei pra minha vida toda. Eu desenhava sempre, mas quando cheguei na adolescência, acabei deixando isso de lado e fiquei quase 10 anos sem desenhar direito. Só algumas coisas aqui e ali. Eu tinha um grande de problema de não conseguir criar meus próprios desenhos e traços, apenas copiava e isso me deixava desanimada pra desenhar. Acho que eu parei de desenhar por conta das motivações, achava que isso era pra pessoas muito boas e que tinham “o dom”, apesar de sempre falarem pra mim que eu tinha facilidade com isso e era talentosa.

Além disso, na adolescência, as mulheres que estavam a minha volta não me incentivavam a desenhar, a maioria falava que era coisa de criança ou de menino, ficar desenhando o dia todo. Além de que meus pais não achavam que isso daria dinheiro futuramente. Minha mãe sempre quis que eu fosse atrás do desenho, fizesse alguma faculdade relacionada, mas eu não dei bola pra ela, achei que isso não seria interessante e nem existiria algo do tipo pra eu continuar. Além disso, eu não sabia muito bem onde procurar informações ou cursos ou qualquer, tudo era muito escondido e tudo acabou me fazendo largar mão.

Passando um bom tempo, lá em 2014, meu amigo e eu tivemos uma ideia para uma comic e eu pensei em desenhar. Eu estava há muito tempo sem desenhar e só saia coisas horríveis. Meu amigo me ajudou bastante, criticava e falava o que eu podia melhorar. Nessa época eu pensei em comprar uma mesa digital, meu sonho era desenhar no computador porque eu nunca me dei bem com papel. Sempre achei a arte manual cansativa e chata, além de que gastava muitos materiais e quase tudo era caro. Quando eu comecei a desenhar no digital, foi assustador porque parecia que eu não sabia desenhar (risos), mas fui aprendendo e fui me dedicando e indo mais a fundo.

Trabalho de Fernanda Turesso.

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Acredito que desde 2014 eu tenho me dedicado melhor ao desenho e às artes digitais. Também acho que a minha ansiedade ajudou a diminuir o ritmo do meu aprendizado, mas, continuei mesmo assim, mesmo as coisas parecendo muito longe de eu alcançar. Atualmente estou pensando em migrar para o 3D, mas isso é um longo caminho ainda”.

    Já escutou o último episódio do Sala 1604? Clique aqui e ouça o episódio #088 | Perseguindo Seus Objetivos – Trajetória de Rayner Alencar.

Leandro Orthovasky

“Bom, eu comecei a desenhar quando era criança, meados de 2002. Eu tinha 12 anos (super influenciado pela enxurrada de animes da década de 90 que dominavam a TV e pelas revistas Ultra Jovem), porém sem levar nada a sério. Aos 16 continuava desenhando, sem nenhuma pretensão de ganhar dinheiro com arte, uma professora do ensino médio recomendou que me matriculasse numa escola de desenho pois eu me destacava nas aulas.

Trabalho de Leandro Orthovasky.

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Tentei me matricular em uma escola de desenho voltado para mangá mas a mensalidade era fora do orçamento que tínhamos em casa (morando minha mãe, meu irmão e eu, e apenas minha mãe tinha renda). Dali em diante desenhar foi tido apenas como hobby, e fui deixando de praticar ao passar dos anos.

Comecei a trabalhar aos 18 e já tinha como foco trabalhar com T.I. Comecei então à estudar com foco nessa área, fiz cursos técnicos e profissionalizantes. Jurava que seria programador pro resto da vida. Entrei na faculdade de Jogos Digitais, o foco do curso era totalmente em programação e game engine, porém tive uma matéria de 3D com Blender que fez toda a diferença.

Essa matéria reavivou minha vontade de trabalhar com arte, não em 2D, mas agora em 3D. Fui responsável por toda modelagem 3D do meu TCC (um jogo mobile de realidade aumentada utilizando um robô feito com Arduino). Terminando a faculdade procurei tutoriais e aulas online voltados para escultura digital e modelagem poligonal, foi aí que vi muitas aulas do Raul Tabajara, e em uma dessas aulas ele indica o curso de Anatomia com Zbrush do Rafa Souza. Comprei o curso do Rafa durante minhas férias e desde Dezembro de 2016 venho me dedicando diariamente à arte 3D. Até voltei a desenhar também, porém sem muitas pretensões apenas para sketchs pessoais.

Olhando agora para trás, não olho as decisões tomadas como errôneas ou precipitadas, foi necessário viver tudo o que vivi para chegar onde cheguei, desde limitações financeiras até falta de tempo para estudar, dadas as pressões da vida, foram necessárias. O que realmente percebo que faltou foi incentivo familiar, talvez um mindset mais focado e perseverante da minha parte para aquela época”.

Itamar Souza

“Aquilo né?! Que provavelmente todo mundo está cansado de ouvir. Sempre desenhei desde criança, mas nunca vi isso como um trabalho, e acabei fazendo escolhas mais “seguras”. Então eu fiz 2 faculdades diferentes tentando me encontrar. Uma de arquitetura e urbanismo e outra de análise e desenvolvimento de sistemas (risos). Mas o engraçado é que as vezes eu passava mais tempo desenhando do que fazendo trabalhos da faculdade.

Eu gostava de desenhar, até tinha uma wacom velhinha, mas como eu já comentei, não sabia que era um trabalho válido. Então eu vi uma live gravada do Mike Azevedo no bate papo ilustrado em 2016, foi quando percebi que era possível viver de arte, e dentro do Brasil (isso explodiu minha cabeça). Foi com ele também que conheci o mercado de ilustração para games (meu foco atual).

Mike literalmente mudou minha vida. Mas quando decidi sair da segunda faculdade, percebi que não havia uma “faculdade” específica pra ilustração (quase me matriculei em design gráfico). Então resolvi ser autodidata, de novo por influência do Mike, isso foi em agosto de 2016.

Eu não sabia absolutamente nada de ilustração, menos ainda sobre ilustração digital (e eu não desenhava nada além de mangá bem infantil). Foi uma dificuldade gigante encontrar material e ajuda. Mas eu só comecei a estudar pra valer mesmo quando entrei num grupo de ilustração em 2017. Pessoas dando feedback no meu trabalho, dicas de como estudar e ver os estudos deles foi essencial.

Trabalho de Itamar Junior.

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Mas eu me sentia muito frustrado por ver pessoas da mesma idade que eu, ou as vezes até mais novo criando artes incríveis e já trabalhando na área. Esse é o principal motivo pelo qual eu sinto que comecei tarde, sentimento de tempo perdido sabe? Se existisse mais informações eu poderia ter começado desde a adolescência. Hoje em dia meu pensamento está focado em aproveitar o tempo presente, invés de lamentar o tempo perdido (mesmo que o pensamento não saia da minha cabeça)”.

Por fim, você acha que existe um limite de idade para começar a se dedicar ao que se ama?

Marcio Florindo

“Não, não. Eu não acredito não! Tem um caso… Eu não vou lembrar o nome do artista. Ele começou a trabalhar depois dos 40 anos, se não me engano. Então idade não é importante, não tem nada haver. Não quer dizer nada, na verdade. Eu acho que a juventude de hoje em dia tem uma coisa com eles, assim, tipo ‘eu vou morrer amanhã! Preciso ser o melhor artista do mundo ou ser formado na faculdade ou já ter minha profissão, meu emprego, meu negócio próprio. E tudo antes da semana acabar!’, sabe? E quem é assim? Você pode até achar alguns exemplos, mas são exemplos raríssimos e vai saber lá Deus quem ajudou essas pessoas, porque elas não chegaram lá sozinhas’.

Então hoje, eu acho que a juventude tem esse mal. Esse problema, sabe, de achar que o mundo vai acabar amanhã. E gente, não é assim que funciona! É igual academia (tô usando um exemplo que eu ouvi, acho que foi o Rafa Souza que deu esses tempo num podcast de vocês*). Ele fala que você vê um cara musculoso e fala ‘nossa, o cara tá malhando ali e eu nunca vou ficar daquele jeito’ mas o cara tá ali a 10/15 anos malhando. ele não começou ontem. São coisas que a juventude tem que ignorar! Ignorar esse negócio da idade e ir, só vai”.

Fernanda Turesso

Eu não acho que exista limite pra nada. Todo mundo tem que aprender e fazer o que gosta independente da idade. Eu acredito que eu poderia ter aproveitado muito mais os meus anos passados aprendendo. Talvez hoje eu fosse muito melhor do que sou hoje. Mas não podemos pensar no passado, temos que pensar sempre no que podemos fazer aqui e agora, independente se eu tenho 15 ou 50 anos o/”.

Leandro Orthovasky

“Com certeza não existe limite de idade para começar. Dentro da própria arte temos vários exemplos de artistas que começaram muito tarde e são ícones hoje. O importante é que mesmo começando tarde, você tenha paciência, humildade e resiliência para aprender, uma frase do Nietzsche resume isso muito bem: ‘Demore o tempo que for para decidir o que você quer da vida, e depois que decidir não recue ante nenhum pretexto, porque o mundo tentará te dissuadir.’ “

Itamar Souza

“Eu acredito que não existe um limite de idade para começar a viver do que se ama (mesmo que seus pensamentos e a sociedade digam o contrário). Poxa, trabalhamos tanto durante nossas vidas. Conseguir extrair felicidade desse tal trabalho, é uma das coisas mais legais do mundo”.

Resumindo todas essas histórias: Esse negócio de “não tenho mais idade para começar a estudar algo novo” não cola! É óbvio que aqui não estamos considerando nenhum tipo de limitação (como limitações físicas, psicológicas, financeiras e etc.). O que estamos tentando dizer é que se você quer conquistar o seu espacinho fazendo algo que realmente ama, não pode ter medo de começar a correr atrás disso.

E pensando nisso, nós do RevoCrew separamos algumas sugestões de episódios do Sala 1604 que podem servir de motivação para todos aqueles – principalmente os que se consideram “velhos de mais” –  que querem começar a se dedicar aos estudos e ao início de uma carreira dentro da área de entretenimento (seja como ilustrador, pintor digital ou modelador), mas, ainda não deram os primeiros passos:

   Episódio 063 | Você é muito velho pra começar?

   Episódio 071 | Vivendo Um Dia de Cada Vez

   Episódio 076 | Quero ser artista, qual faculdade fazer?

   Episódio 086 | Então é Natal e o que você fez?

Ah, e se você já iniciou os seus estudos mas está se sentindo meio desmotivado, também temos alguns podcasts que podem ajudar:

A gente sabe que o caminho não é fácil, ainda mais se você já estiver com uma carreira formada em qualquer outra área de atuação, mas isso não significa que chegar ao final da trilha seja impossível! Além disso, com a licença para um pensamento pessoal, acredito de verdade que a determinação conta mais do que a idade em si.

Se identificou com as histórias? Deixa a sua trajetórias nos comentários 🙂

Entramos em um novo ano e queremos saber o que vocês querem de diferente por aqui! Você pode nos enviar sugestões de novos conteúdos através do e-mail now.revonow@gmail.com! (:

Imagem de Capa por Giovani Kososki. 

18 anos, cabeça nas nuvens e viciada em marca-páginas,
Prazer.

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