Dicas de Estudo

James Gurney – Combinando os Elementos

Song in the Garden – James Gurney

Quando estamos no início da nossa jornada artística, em busca de produzir nossas imagens, muitas vezes nos deparamos com a questão de como criar uma imagem do zero. Vejo isso constantemente entre os alunos.

Sabemos que o domínio das técnicas (desenho, pintura, composição, teoria cromática, etc.) é necessário pra que essa criação aconteça (dentro de um segmento como o da arte figurativa) mas ainda assim, na ânsia e urgência de se criar algo, muitos de nós esquecemos os passos envolvidos no processo, além dos fundamentos necessários.

Um cara que ilustra isso de uma forma bem interessante é o James Gurney. Nunca ouviu falar?! Sem problemas: James Gurney é um renomado ilustrador americano, criador de uma série de livros chamada Dinotopia. Além disso, ele está sempre envolvido nos processos de aprendizado das artes, seja em aulas, cursos, vídeos, blog e livros como Imaginative Realism e Color and Light. No primeiro ele trata, dentre vários tópicos, das diversas possibilidades de se trabalhar a criação de uma imagem, sendo que o subtítulo do livro é “How to Paint what doesn’t exist” (Como pintar o que não existe). Já no Color and Light, ele fala exclusivamente sobre luz e cor, ou como diz o subtítulo “A Guide for the Realist Painter” (Um guia para o pintor realista).

Neste post vamos trazer um tópico do livro Imaginative Realism como guia para nossa conversa. O tópico tem o título que ilustra o post: Combinando os Elementos.

“Como combinar os elementos? Quais são esses elementos?! Quando vamos pra parte divertida de criar minhas imagens?!?”

Calma lá, criança aflita! Vamos seguir os passos e ver no que dá.

Primeiro lugar, precisamos botar alguma ideia no papel ou no computador, certo? Seguindo a sugestão do tio James, esse processo pode se dar através de um sketch ou desenho em thumbnail. Ou seja, um desenho em proporções reduzidas onde damos uma idéia geral do que pode ser a imagem, seus elementos e até mesmo um clima da cena. Desenhar de forma reduzida ajuda na observação da imagem como um todo, sendo que não gastamos tempo nem energia pra se preocupar com detalhes neste momento.

Claro que como o tio James já tem umas milhas extras na habilidade Desenho, o thumbnail/sketch dele já tem uma identidade forte:

Na sequência ele começa a juntar referências. Neste caso em específico, ele pede para alguns amigos se suas filhas pequenas poderiam posar vestidas com autênticas roupas brancas, além de instrumentos musicais. A sessão de fotos foi feita de improvisação para gerar fotos mais soltas das garotinhas. Na descrição dele, esse fato é bem curioso: “Eu fiz as tiaras com flores artificiais….”

“Velho, onde eu teria a disponibilidades de fotografar crianças vestidas com roupas brancas, usando TIARAS DE FLORES ARTIFICIAIS feitas por mim mesmo?!?”

Caaalma, jovem padawan! Nosso amigo James é um cara no mínimo digamos, exótico, que se envolve ao extremo nas suas produções artísticas. Quem puder ver os livros dele, vai perceber que ele é do tipo que parece estudar a fundo o que ele vai criar, ao ponto de vestir pessoas com as roupas necessárias, visitar lugares, fazer maquetes… (além de ter fotos com um pássaro ou periquito no ombro enquanto desenha. No mínimo estiloso, não?)

Falando em maquetes, vamos seguir nossa matéria.

Neste momento, para a pintura do dinossauro (ou melhor, Anchiceratops, segundo descreve) ele pega uma maquete que outro artista criou e tira fotos, além de estudar outras maquetes de dinossauros para entender como a cabeça e o corpo seriam vistos naquele ângulo.

Vemos aqui que, por mais que o processo dele pareça ser meticuloso demais (e de certa forma é), o processo dele de pesquisa e entendimento de como as coisas se comportam e funcionam é bem enriquecedor. Com isso ele ‘embasa’ sua obra com bons ‘argumentos’.

“……..maquetes?……… cara…..””

Sim, eu sei. Mas poderíamos usar referências fotográficas, desenhos e pinturas (afinal, fotografias de dinossauros seriam um pouco difíceis de achar…), filmes, etc. Poderíamos usar também programas 3D, que auxiliam nesse processo. Isso é algo que atualmente está sendo bastante utilizado pela galera que trabalha com concept: uma integração entre 2D/3D para a produção das imagens. No caso, só teríamos que acrescentar uma skill a mais: habilidades com programas 3D.

Bom, depois da parte das modelos e maquetes, ele mostra uma quantidade grande de referências fotográficas e desenhos relacionados com a obra que está produzindo. O legal é que ele se envolve totalmente naquele universo da obra juntando todas as informações possíveis para a produção.

Isso já quebra um velho paradigma famoso: o uso de fotografias e referências.

“Peraí, você tá falando que eu POSSO usar referências e fotografias para criar um trabalho meu?! Cê tá zuando…”

Sim, meu rei. Pode sim. Aliás, deve usar referências. Se você tiver que desenhar uma baleia branca do sul do Ártico e nunca viu como ela se parece, como vai desenhá-la? A não ser que tenha uma descrição muito detalhada dela, vai ser difícil. De uma forma mais simples, se você nunca desenhou um crânio ou um rosto, como pode saber de cabeça que as distâncias dos olhos, nariz e boca fiquem com um aspecto correto ou até mesmo natural?

Claro, devemos tomar algumas precauções com direitos autorais, evitar cópias, essas coisas que todo mundo sabe (ou deveria saber). Mas podemos ter o suporte da fotografia, 3D pra produção, sim.

Na sequência ele entra na produção propriamente dita, ou melhor, ele põe a mão na massa.

Coloca uma fita ao redor do papel que ele vai pintar, desenha a cena inteira nesse papel e joga uma leve cor para dar uma entonada na cena.

À esquerda vemos um pequeno sketch colorido que ele usa como referência (ou seja, ele já pintou a cena antes nesse sketch reduzido) e vai blocando as cores com pincéis grandes para estabelecer a aparência geral da pintura.

Depois de fazer essa blocagem, começa a detalhar as figuras com um pincel pequeno e segue nesse ritmo até o final. Ele costuma escutar músicas ou audiobooks durante esse processo, mas nos estágios mais iniciais ele prefere ficar em silêncio (provavelmente para evitar distrações). A pintura inteira, desde posar as modelos até a arte final, levou 14 dias.

“… vey do céu…… que trampo….””

É, é bastante trabalho.

Gosto desse passo a passo dele porque, por mais que não precisemos segui-lo extremamente à risca, ele mostra que pra tudo existe um processo. No momento em que se tem uma ideia, um esboço no papel, é necessário um trabalho de pesquisa, estudo de como as coisas funcionam e se comportam, análise das referências, estudos tonais ou coloridos, tudo isso antes de botar a mão na massa… ou na tinta… ou na tablet e finalizar a obra.

Percebam que durante esse processo todo, a ideia sai do abstrato e começa a se concretizar cada vez mais na cabeça dele, até a hora que ele simplesmente senta, desenha, pinta e finaliza, ou melhor, concretiza a imagem.

Essa não é a única forma de fazer, mas mostra de uma forma bem interessante os processos que um artista passa para construir sua imagem.

“Mas meu desenho nem de longe chega no nível dele!! E agora?!?”

Easy, little fellow! É importante lembrar que ele não tem mais aquela preocupação com formas, valores tonais, teoria cromática, desenho, etc. Por ser um artista tarimbado e já ter produzido muito, ele direciona toda a energia dele pra construção da cena que quiser.

Se você se encontra num estágio inicial, não se preocupe. Tudo é possível, com dedicação, foco, estudos, experimentos. O mais importante é achar aquele prazer em se empenhar em algo de que se goste, dedicar tempo e produzir.

Lembre-se que você não precisa, necessariamente, ser um mestre no desenho, depois ir pra pintura, depois ir pra composição, anatomia e assim por diante pra criar suas imagens. Esse processo de aprendizado vem naturalmente, conforme a dedicação e o entendimento de cada um. É aconselhável intercalar a produção de uma imagem inteira com estudos mais direcionados como observação, valor tonal, cores. Conforme você cria suas imagens, vai percebendo onde estão suas falhas e com isso começa a trabalhar em cima delas. Aos poucos, o aprendizado vai sendo absorvido e a evolução acontece de forma natural.

* Quem quiser conhecer mais sobre o James Gurney pode acessar seu site ou o blog, onde ele posta muito desses assuntos. 
* Ele também possui um canal no Youtube
* E sobre seus livros (ainda sem tradução em português), seguem links direto pra Amazon: Imaginative Realism e Color and Light

18 anos, cabeça nas nuvens e viciada em marca-páginas,
Prazer.

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