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Oscar 2020: Os Principais Acontecimentos na Noite

Dia 9 de fevereiro foi o grande dia, tão esperado pelo mundo todo, a cerimônia da 92ª edição do Oscar! Os ganhadores todos já sabemos, mas a cerimônia é muito mais do que os momentos de “And the Oscar goes to…”. Cheio de críticas e manifestações desde o anúncio dos nomeados aos prêmios, essa edição teve grandes surpresas e muita coisa ainda pode ser dita e discutida sobre a premiação.

Parasita e o Melhor Filme

Talvez a maior surpresa da noite tenha sido essa, todos já sabem que o filme Parasita, de Bong Joon-Ho, foi o ganhador do principal prêmio da noite, o Melhor Filme! Essa foi a primeira vez que um filme estrangeiro ganhou na categoria. Apesar de o longa estar fazendo muito sucesso em diversas outras premiações ao redor do mundo, não se esperava que a Academia daria o maior se seus prêmios a um filme que não é da língua inglesa.

O Oscar já tem um histórico não muito bom de não reconhecer filmes internacionais nas categorias principais, muito menos para Melhor Filme, e essa foi apenas a sexta vez em que houve a nomeação de um filme assim na categoria.

Além disso, o filme também foi premiado em mais duas categorias principais, Melhor Diretor (Bong Joon-Ho) e Melhor Roteiro Original (Bong Joon-Ho e Han Jin-won). A quarta categoria que Parasita levou o prêmio da noite não foi nenhuma surpresa, o Melhor Filme Internacional não haviam dúvidas desde o começo sobre essa vitória.

Em seus discursos nas últimas semanas, Bong Joon-ho tem enfatizado bastante a questão da barreira linguística nos estados unidos (que se estende a outros países de língua inglesa), onde não é comum o consumo de conteúdos em línguas estrangeiros, muito menos no cinema, com filmes legendados. Quebrar a barreira da legenda no país com a maior produção cinematográfica do mundo não é uma tarefa fácil, muitos espectadores norte americanos têm criticado muito Parasita por não ser em inglês ou dublado, mas o diretor faz um apelo muito pertinente em seu discurso após ganhar o Globo de Ouro, em janeiro:

"Parasite" Wins Best Motion Picture, Foreign Language - 2020 Golden Globes

Here is Bong Joon-ho's acceptance speech for Parasite, winner of Best Motion Picture, Foreign Language at The Golden Globes.

Posted by NBC on Sunday, January 5, 2020

Ainda sobre a categoria de Melhor Filme, o favorito da noite era “1917”, longa de Sam Mendes, e com razão! O filme era realmente um dos melhores e mais bem produzidos de 2019, acompanhando dois soldados britânicos em uma missão urgente durante a Primeira Guerra Mundial, dando a impressão em uma produção sem cortes e que acompanha essa jornada em tempo real.

Apesar de não ter levado o Melhor Filme, 1917 ainda levou para casa 3 prêmios em categorias técnicas, tendo a sua produção impecável reconhecida em Melhor Mixagem de Som, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Fotografia.

Joaquin Phoenix

Outro resultado que não foi nenhuma surpresa na noite foi a vitória de Joaquin Phoenix na categoria de Melhor Ator! Ele já tinha levado outros prêmios em outros festivais pela sua atuação no filme Coringa e mesmo concorrendo com Antonio Banderas, Leonardo DiCaprio, Adam Crives e Jonathan Price, sabíamos que o Oscar viria para o vilão mais amado de todos os tempos.

Seus discursos nas últimas premiações têm tido bastante destaque, já que o ator é a favor de causas sociais, ambientais (veganismo), igualdade de gênero e racial, e têm usado a posição de grande destaque que ele está para levar essas mensagens ao mundo. Seu discurso durante o Oscar não foi nem um pouco diferente, Phoenix emocionou o público falando sobre segundas chances e sobre igualdade e representatividade: “Seja falando sobre desigualdade de gênero, racismo, direitos dos LGBTs, dos indígenas ou dos animais, estamos falando sobre lutar contra a ideia de que uma nação, uma raça, um gênero ou uma espécie tem o direito de dominar, controlar, usar e explorar os outros sem impunidade. Acredito que nos desconectamos do mundo natural e nos sentimos culpados por ter uma visão egocêntrica

Assista ao discurso na íntegra aqui:

Eminem e Martin Scorsese

Mas não apenas de momento emocionantes e profundos se faz um Oscar!

A cerimônia contou com uma apresentação surpresa de Eminem, que não estava divulgada no cronograma do evento, e que rendeu um dos memes essa edição. Durante a transmissão ao vivo, uma câmera focou no aclamado diretor Martin Scorsese, que dava uma cochilada durante o show! A imagem ficou no ar apenas por uns instante, até que mudassem o foco novamente, mas já foi o suficiente para dar para o flagra da cena. Assista aqui:

Representatividade no Oscar 2020

Cada vez mais, o Oscar tem sido criticado pela falta de representatividade de minorias entre os indicados e vencedores da premiação, esse ano em especial esses assuntos foram muito comentados desde a nomeação dos indicados até mesmo durante a cerimônia.

Uma das principais críticas à esta edição foi a ausência de pessoas negras entre os indicados nas categorias individuais, apenas com a atriz Cynthia Erivo, concorrendo a Melhor Atriz por Harriet, mas que acabou não levando o prêmio. O assunto foi comentado pelos comediantes Steve Martin e Chris Rock, que deram uma alfinetada comparando a primeira edição do evento, em 1929, onde não haviam pessoas negras concorrendo, e esta edição, “agora temos uma!”. Assista a abertura hilária dos dois comediantes na íntegra aqui:

Ainda em um cenário de representatividade bastante desigual, ao menos uma vitória foi comemorada com o Melhor Curta Metragem Animado! Hair Love é uma produção da Sony Pictures Animation e fala justamente sobre aceitação do cabelo negro, natural e crespo, em uma história curta e muito emocionante. 

O diretor do curta, Matthew A. Cherry está em uma campanha a favor de do The CROWN Act (Creating a Respectful and Open World for Natural hair – criando um mundo de respeitoso e aberto ao cabelo natural), que defende leis que protejam as pessoas negras de serem discriminadas por usarem cabelos crespos e naturais. A produção do filme também convidou o jovem De’Andre Arnold, que é o protagonista de um caso de racismo em sua escola, no Texas, onde ele foi impedido pela direção da escola a participar de sua própria formatura, por usar dreadlocks nos cabelos.

O tempo para o discurso foi curto, mas eles conseguiram deixar seu recado:

O show de abertura da cerimônia foi um momento simplesmente incrível! Protagonizado pela atriz e cantora Janelle Monáe e com a participação especial de Billy Porter, os dois marcaram presença no palco com referências a diversos filmes do ano, como Um Lindo Dia na Vizinhança, Coringa, Adoráveis Mulheres, Midsommar, entre outros. Tá aí um momento que vale a pena ser reassistido:

Na questão de representatividade feminina, mais uma vez essa edição da premiação também deixou a desejar. A quantidade de mulheres indicadas a prêmios nas categorias que não fazem distinção de gênero foi muito abaixo do esperado, em um ano em que diversas mulheres tiveram um grande destaque na indústria cinematográfica, principalmente na direção. Boa parte do público acabou interpretando o fato como uma negligência a essas profissionais por parte da Academia.

Em um ano em que diversas mulheres foram diretoras ou co-diretoras de diversas grandes produções e nenhuma delas chegar a uma indicação à Melhor Diretor, foi uma das maiores críticas às indicações do ano. Em toda a história da premiação, apenas 5 mulheres foram indicadas à essa categoria, sendo que apenas uma levou a estatueta para casa, Kathryn Bigelow em 2011, pelo filme Guerra ao Terror.

A atriz Natalie Portman, que já é conhecida por defender abertamente o feminismo, chegou ao tapete vermelho da premiação não apenas com um vestido belíssimo, mas também usando uma capa com nomes de diretoras mulheres que tiveram destaque neste ano, mas não foram indicadas, Lulu Wang (The Farewell), Greta Gerwing (Adoráveis Mulheres), Marielle Heller (Um Lindo Dia na Vizinhança), Alma Har’el (Honey Boy), Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas), Lorena Scafaria (As Golpistas), entre outras.

Mas, mais uma vez, também tivemos o que comemorar!

Durante a premiação, tivemos Gal Gadot (Mulher Maravilha), Brie Larson (Capitã Marvel) e Sigourney Weaver (Alien e Os Caça Fantasmas) anunciando a premiação de Melhor Trilha Sonora Original e, como já é tradição, a orquestra do evento tocou um trecho de cada uma das composições indicadas. A novidade é que essa foi a primeira vez em que essa apresentação foi feita conduzida por uma mulher, a maestrina Eimear Noone.

Ainda na categoria de Melhor Trilha Sonora, quem levou o prêmio este ano foi a islandesa Hildur Guonadóttir, compositora de “Coringa”, sendo a primeira mulher a ganhar nos últimos 23 anos da premiação, a sétima indicada e a quarta ganhadora nos 92 anos da premiação. Ela também foi a compositora da trilha sonora da série Chernobyl, que também fez muito sucesso entre o público e nas premiações. Em seu discurso, ela também deixou seu recado a todas as mulheres que atuam ou querem atuar como profissionais de música. Confira todo o momento na íntegra aqui:

Outro detalhe muito importante sobre essa edição é que ela foi a primeira em que tivemos um apresentador com Síndrome de Down! O ator Zack Gottsegen entrou junto com Shia LeBeouf para entregarem o prêmio de Melhor Curta Metragem. Os dois atores trabalharam juntos no filme “The Peanut Butter Falcon”, em 2019.

A diretora de The Peanut Butter Falcon declarou que LeBeouf só havia aceitado participar da premiação se fosse acompanhado de Zack. A mãe do ator também declarou que, após trabalharem juntos, os dois se tornaram grandes amigos na vida real. 

Ainda sentimos muitas faltas e falhas por parte da Academia para poder acompanhar as mudanças do mundo e valorizar produções e profissionais que não se encaixam completamente nos padrões sociais que estão cada vez mais ultrapassados, mas mesmo assim também conseguimos ver que há essa tendência de uma abertura maior nos próximos anos. O público quer ver isso acontecendo e os profissionais da área querem que essa indústria melhore e seja mais representativa, então esperamos estar certos sobre isso e veremos o que irá acontecer nos próximos anos =)

Melhor Documentário e o Brasil no Oscar

Os documentários do Oscar deram o que falar aqui no Brasil, em especial, com concorrentes muito fortes na categoria de Melhor Documentário. Havia uma grande expectativa aqui para a vitória da produção brasileira Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que estava concorrendo e era uma das favoritas à categoria. Seria a primeira vez que uma produção brasileira levaria um Oscar para casa, mas ainda não foi essa vez.

Apesar disso, apenas pela nomeação, a diretora Petra Rocha conseguiu espalhar sua mensagem e sua produção, que fala sobre o momento histórico e político que se iniciou em 2013, passou pelo impeachment de Dilma Rousseff, a eleição do presidente Jair Bolsonaro e a ascensão da extrema direita na política brasileira.

No tapete vermelho, Petra Costa foi acompanhada da equipe de produção do documentário com diversos cartazes se manifestando a favor da proteção dos povos indígenas e contra a ascensão do neo-fascismo.

Apesar de não ter sido o resultado que tanto esperávamos aqui, o Melhor Documentário ficou com “Indústria Americana” e mais uma mulher subiu ao palco do Oscar, a diretora estadunidense Julia Reichert, que luta contra um câncer terminal. O documentário de Reichert também fala de temas sociais, as relações de trabalho no sistema econômico capitalista nos Estados Unidos. Seu discurso foi de incentivo às mulheres no cinema e à classe trabalhadora.

Os dois documentários são produções da Netflix e estão disponíveis na plataforma de streaming.

A Melhor Animação

Não nos cansamos de falar sobre a animação “Klaus”, ela era uma das favoritas na categoria de Melhor Animação e, mesmo concorrendo com Toy Story 4 e Como Treinar Seu Dragão 3, muitos fãs acreditavam que ainda havia chances de levar o prêmio para casa.

Klaus foi considerado pela crítica como um renascimento da animação 2D, que tem caído cada vez mais em desuso para a produção de longas animados, além de sua história extremamente envolvente, bastante lúdica para o público infantil e que cria uma nostalgia muito boa para o público adulto, tanto com uma história completamente nova sobre o natal, quanto com a volta da animação 2D.

No final, “Klaus” acabou perdendo o prêmio para “Toy Story 4”, da Pixar, mas mesmo assim é uma produção vitoriosa.

TOY STORY 4 - (L-R) Bo Peep, Woody and Buzz Lightyear. ©2019 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Cats no Oscar???

Para terminar, “Cats” foi um dos filmes que mais deram errado, mas também um dos mais comentados no ano de 2019. Uma adaptação do musical da Broadway, a produção fez toda a caracterização das personagens com efeitos visuais e os resultados foram misturas de gatos e pessoas que não ficaram muito agradáveis. Não preciso nem dizer que o filme não foi indicado a nada na premiação.

MAS, o que não poderia faltar era uma pequena zoação com ele! Os atores de Cats, James Corden e Rebel Wilson subiram ao palco vestidos de gatos para anunciar justamente os Melhores Efeitos Visuais do Oscar 2020. Assista aqui:

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